Nem faz tanto tempo assim

Lembro com muito carinho da minha infância e adolescência, quando a estrada do Santuário não tinha nome nem asfalto e os pomares carregados de laranjas e mexericas ficavam avermelhados de poeira com o movimento dos carros e caminhões, creio que  a lembrança da  poeira vermelha  não é nada  prazeirosa para  minha mãe que dava  duro para manter a casa limpa. Tenho que  concordar que a paisagem ficava mais  bonita  depois da  chuva, em compensação a estrada virava um problema.
Até a terceira série a criançada ia a pé na escolinha perto da igreja,  depois crescemos nos ónibus São Jorge e Rosa indo e voltando para estudar na cidade, rotina cansativa,  mas nada  comparada com a do meu pai que  caminhava quilómetros diariamente para completar o primário no Morro do Alto e depois foi  para  Tatui sozinho aos 13 anos de  idade para  trabalhar e continuar estudando, fato que ele faz questão de nos  lembrar sempre que tem oportunidade. Valeu Pedro Aires! A família  segue evoluindo, acompanhando o progresso que  foi chegando devagar e mudando nosso bairro, facilitou bastante, mas os  pomares se foram  junto com a poeira,  e as  chácaras tomaram conta da paisagem. 
Quando penso na minha infância, algumas coisas me vêem fácil na memória: a bicicleta Caloi vermelha da Valdete, que ela cuidava com tanto  zelo e possivelmente  tem até hoje, a jabuticabeira da casa da Margarida, que nos servia  de sobremesa após  o almoço, a roça alta de milho verde que faziam as casas parecerem longe umas das outras, o meu avô José de Souza, homem forte de chapéu de palha e enxada nas mãos se ocupando de manter limpas as plantações e a estrada, também me lembro dele carregando umas varas finas de bambu e um cestinho cheio de alambaris, a casa pequena do Salvador Nunes, onde o  povo gostava  de se reunir para rezar e depois contar estórias de assombração.
Tímida  infância, adolescência  careta, mas longe de ser pacata e monótona como sugere a vida no campo, o Santuário tinha time de futebol, grupo de teatro, e ninguém  batia o Irineu e  o Toninho nos concursos de  desenho promovidos pela Pastoral da Juventude. Formávamos um grupo forte, criativo e petulante, organizávamos festas e baile de carnaval sob protesto dos mais conservadores, envolvíamos a comunidade nas nossas atividades, passávamos horas planejando, ensaiando ou apenas sonhando juntos. Irineu, amigo de todas as horas, muito cavalheiro e paciente com as  meninas, emprestava seus ouvidos para  as nossas besteiras, e as vezes a conversa  se estendia  madrugada adentro.  
Algumas  coisas mudaram bastante, outras nem tanto, eu por exemplo, continuo acreditando que posso mudar o mundo. 

 

Comentários

  1. Ai amiga, que lindo...fui lendo e me emocionando...tão bom viver a vida que foi desenhada pra você, na sua infância...lúdica, bucólica, perfeita...beijos e mais beijos

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